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REVISTA (ISSN 1887-2859)

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nº 09 (2013).-PARAFITA, Alexandre: Março marçagão

©Alexandre Parafita © Revista electrónica de investigación Galicia Encantada (http://www.galiciaencantada.com) / ISSN 1887-2859. nº 9, ano 2013. _________ ©Imaxes correspondentes aos meses de febreiro e marzo, tomadas do calendario ilustrado do Speculum Humanae Salvationis, nun exemplar conservado na Royal Library of Copenhagen __________ Este fim de semana, com os temporais de tornados e trovões a eclodir por todo o lado, é bem a prova acabada de mais um março marçagão, invariavelmente traiçoeiro: “de manhã cara de cão, ao meio dia cara de rainha, à tarde cara de fuinha e à noite corta como a foicinha”. Não é em vão que o povo do Douro vai dizendo que o “março é merceeiro e tão falso com´ó fevereiro”. Do fevereiro, a gente já sabia que é velhaco. Afinal, “matou a mãe ao soalheiro”. Em Sabrosa, conta-se que a pobre velhinha, mãe do dito, ao olhar pela janela e, vendo o sol a raiar, perguntou ao filho: – Olha lá, ó fevereiro, hoje não mandas chuva? – Hoje não – diz ele. – Hoje mando uma ressa de sol. Ela então pegou na roca e no fuso e foi para o soalheiro fiar. Nisto, o safado mandou vir uma forte saraivada, e a pobre, como era velhinha, não teve tempo de fugir e morreu ali mesmo. Assim se conta em Sabrosa. Mas em Vinhais conta-se mais. Ouvi a um idoso de Espinhoso que o fevereiro fez vir uma ressa de sol e mandou a mãe ao monte nua. A seguir, mandou uma saraivada e matou-a. Por isso, diz o povo que “o fevereiro é velhaco e traiçoeiro” e que “fevereiro quente traz o diabo no ventre”. Também me contou o mesmo idoso de Espinhoso que, uma velha, já farta do fevereiro, ao chegar a 28, disse-lhe: – Vai-te embora, maldito fevereiro, que só me deixaste um cordeiro! E ele: – Andá lá, anda, que ainda aí vem o meu irmão março que não te deixará nem cordeiro nem farrapo! Como de facto. O março aí está a fazer das suas. E daí que o povo diga: “O março leva a ovelha e o farrapo e o pastor se é fraco; e o cão escapará ou não”. Mas saiba-se também que, antes de partir, ainda deixa ficar as suas ameaças. Contou-nos o nosso bom amigo e narrador de Espinhoso que, ao aproximar-se o fim do março, uma velha foi-se a ele e disse-lhe: – Vai-te março marçagão, que ainda me deixas a minha vaca e o meu bezerrinho são! E ele respondeu: – Cala-te, velha, que com os três dias que ainda tenho e mais três que me empresta o meu irmão abril, ainda te faço andar com o bezerrinho ao quadril! A gente ouve o povo dizer estas coisas, e só pode mesmo é vergar-se perante tanta sabedoria. Alexandre Parafita (escritor e etnógrafo; professor da UTAD)

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